O ROCK DE BRASÍLIA E O TRANSBORDO PARA O ENTORNO SUL
Um recorte sobre a constituição do Rock Ingá entre 1994 e 1999 e suas possíveis contribuições para uma educação musical e patrimonial no contexto escolar
Por: William de Sousa Oliveira![]() |
| Foto: banda PEDIX - Perfomance no Ginásio de Esportes do Jardim Ingá / Fonte: Acervo do autor) |
Este artigo está relacionado a pesquisa de mestrado junto a Universidade de Brasília (UnB), intitulada ‘Dos palcos à Escola: uma abordagem sobre o rock de Brasília como Patrimônio Cultural e Imaterial do Distrito Federal’. Neste contexto, venho realizando trabalhos cuja linha de pesquisa investiga estratégias para o ensino na Educação Musical, tendo como tema e objetos de estudos o 'Rock de Brasília'.
Atuando de forma colaborativa com a BNCC, o Currículo em Movimento do Distrito Federal, documento normativo que orienta a Educação no território distrital, prevê que no ensino de componente Arte (linguagem Música), Ensino Fundamental anos iniciais (6º e 7º ano), que se desenvolvam conteúdos escolares que visem “pesquisar e conhecer músicos o papel de músicos e grupo de música brasileiros que contribuíram para o desenvolvimento de formas e gêneros musicais na construção do patrimônio cultural do Distrito Federal e entorno.” (GDF, 2018, p.108). Embora o Currículo em Movimento aponte os conteúdos a serem abordados para o alcance desse objetivo, ele não apresenta de forma explícita a abordagem do rock brasiliense para a elaboração das aulas.
Para a reflexão deste texto, tomo como pressuposto o transbordo do Rock de Brasília, movimento artístico, que contribui na construção cultural do Distrito Federal e do entorno. Embora o termo ‘Rock de Brasília’ dê a entender que ele se refere a um subgênero do rock próprio de Brasília (ou região do Plano Piloto), por meio de minhas de minhas experiências tenho constatado que ele surge e se desenvolve não somente no território mencionado, mas para as Regiões Administrativas do Distrito Federal e também para a região do entorno de Brasília, território que se situa na divisa do DF com o Estado de Goiás.
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| Foto: banda Nice Cover - performance no Ginásio de Esportes do Jardim Ingá / Fonte: acervo do autor |
Por volta do ano de 1994, no Jardim Ingá, Distrito pertencente ao município de Luziânia-GO, surgiu uma cena cultural local denominada ‘PEDIX’. Neste território, um grupo de jovens adolescentes, carentes de políticas públicas que priorizasse à cultura e o lazer no bairro onde moravam, passaram a se reunir em locais específicos, visando o desenvolvimento de atividades artísticas e culturais. Influenciada pela cultura rock - dentre elas, o rock de Brasília - os jovens passaram a promover festas e encontros os quais compartilhavam fitas K7 , LP’s, Cd' s, HQ’s, Games e camisetas de bandas de rock, possibilitando a formação da identidade do grupo.
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| Foto: Cleanto, Cajú e Polaco - Festa Rock na Casa do Cleanto / Fonte: Acervo do autor |
Logo, o grupo de jovens passaram a frequentar outras festas locais e shows de rock no Gran Circular, no Plano Piloto, e outras cidades da região administrativa de Brasília, como Taguatinga, por exemplo. Dentre outras bandas que tocavam nestes show a época, destacava-se a banda ‘Sem Destino’, que por ser uma banda veterana da cidade, incentivava os jovens a ir em seus shows, abrindo espaço para a integração Brasília-Entorno. Ressalto ainda que o rock do entorno de Brasília ganhou ainda mais destaque quando a banda Sem Destino fez parte das atrações do Rock in Rio na edição de 2001.
As experiências vividas durante este período motivaram os jovens a se organizar em subgrupos, decidiram entre si quem tocaria determinado instrumento e formaram suas próprias bandas. Embora não houvesse uma escola de música para um aprendizado formal, os jovens adquiriam seus instrumentos e promoviam uma educação musical informal, ora estudando sozinho, outrora aprendendo com os amigos.
Sem intencionar destacar uns e excluir outros, a fim de que o leitor se situe sobre algumas bandas e artistas que compuseram este enredo , poderia citar algumas bandas conforme quadro à seguir:
Tabela 1: Relação de bandas e integrantes do Movimento PEDIX
Nome da Banda | Estilo | Membros da banda |
PEDIX | Punk Rock | Ronaldo Rocha (vocal), Marcos The Zaras (guitarra), Noel Dubucho (guitarra), Jeferson Silva (bateria), Cleanto Balbino (baixista) |
Antes do Fim | Pop Rock | Daniel dos Reis (Guitarra e voz), William Oliveira - Polaco (baixo) Juscelino Nakamura (bateria); Neves di Marti (baixo) em 1998. |
Rebeldia | PunkCore | Edvaldo Alves (vocal), Genivan Martins (baixo), Junior Sisão (guitarra), Fernandes Anjo (bateria), Jeferson Silva (bateria) |
Ravina Seca | DeathCore | Maurício SK8 (guitarra e vocal), Fuinha (baixo) e Anderson (bateria) |
Criptona | PunkCore | Uelles (guitarra e vocal), Marquinhos (baixo) e Fabrício (bateria) |
Fábrica | Pop Rock | Fábio Camargo (vocal), Galego (guitarra) e Fabrício (bateria) |
Nice Cover | banda covers diversos | Estênio (vocal) / Fábio Camargo (vocal), Dimas (baixo), Gilson Negrete (guitarra), Júnior Sisão (guitarra), Marcos The Zaras (guitarra), Juscelino Nakamura (bateria) |
Azzimuti | banda covers diversos | Laurinni (vocal), Márcio Dias (guitarra), Wiliam Oliveira - Polaco (baixo) / Celanto Balbino (baixo), Fernando Anjo (bateria) |
Victrus | Punk rock | William Oliveira - Polaco (baixo), Maurício Sk8 (vocal e guitarra), Daniel dos Reis (guitarra), Flávio Nascimento (bateria) |
Exceto as bandas tributos (covers), as bandas em sua maioria criaram suas próprias canções em estúdios improvisados em alguma casa de seus integrantes. Na maioria das composições, um integrante escrevia a letra, ele ou outro integrante criava a melodia principal, e ao reunir a banda, além de tocar seu próprio instrumento, os outros integrantes da banda colaboravam opinando na performance geral do grupo.
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| Foto: Daniel dos Reis e Razon William (Polaco) participação em evento no Antigo PUB's Bola 7 / Fonte: Acervo do autor |
Após a formação das bandas, as apresentações aconteciam também de forma improvisada ou informal. Sem produtores de eventos ou locais próprios para shows, as bandas se reuniam ao modo make it your self, realizando apresentações nas próprias casas de alguns dos membros das bandas. Essas apresentações eram realizadas em festas rock promovidas nas casas, atraindo outros jovens que logo se identificaram com o movimento, construindo uma cena local, no final dos anos 90 e início dos anos 2000, estas apresentações passaram a ser realizadas no ginásio de esportes locais e em pequenas casa de shows. Logo em seguida, algumas bandas passaram a ser convidadas para performar em shows com melhor estrutura no Distrito Federal.
Embora eu tenha destacado o rock produzido no Jardim Ingá na segunda metade dos anos 90, ressalto que o ‘Rock Ingá’, como também é conhecido a cena local, teve como precursores artistas e bandas que desenvolveram suas atividades nos anos de 1980 até a primeira metade dos anos de 1990. Não intencionado me ater a um fragmento cronológico neste momento, mas é importante ressaltar que bandas como Visão Global, Eros e Sem Futuro, dentre outras, constituem um capítulo importante para o rock do Jardim Ingá. Do mesmo modo, após os anos 2000 até o momento presente, outras bandas surgiram, novos artistas ascenderam, enquanto outras bandas terminaram. Ambos os marcos deste cena cultural no território do Jardim Ingá podem tornar-se objetos de estudos futuros, ressaltando a importância destes artistas no desenvolvimento e na preservação do rock como patrimônio cultural e imaterial do Distrito Federal e das cidades situadas em seu entorno.
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| Foto: Ed Rock vocalista da banda Rebeldia / Fonte: acervo do autor |
O rock brasiliense, nascido em meio às inquietações culturais e sociais da capital do Brasil, não se limitou às fronteiras do Distrito Federal, servindo de inspiração para que os jovens da região periférica do entorno do DF pudessem reagir diante das dificuldades de acesso à arte e cultura em sua realidade local. Este transbordo também colaborou para a constituição de influências musicais que marcaram gerações em cidades vizinhas a Brasília, originando uma identidade regional oriunda da capacidade que bandas como Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude tiveram de transpor as fronteiras geográficas do Distrito Federal. A cena cultural de Brasília e do PEDIX, embora ainda possuam fragmentos ainda a ser explorados, ao meu entender, produzem possibilidades de abordagem em sala de aula, uma vez que se caracterizam como artistas e grupos musicais que colaboraram para a constituição do patrimônio cultural do Distrito Federal e do entorno, constituindo também objetos de estudos que dialogam com a história musical, com aspectos de um educação musical informal, com a territorialidade como espaços de construção cultural e com a constituição de cenas artísticas urbanas.
Viva o Rock Brasil!
Viva o Rock de Brasília!!
Viva o Rock Ingá!!


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